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segunda-feira, 8 de junho de 2020

O HIV veio dos macacos?

A origem do Vírus da Imunodeficiência Humana (HIV) tem sido tema de pesquisa científica e debate desde que o vírus foi identificado na década de 1980. Há hoje uma grande quantidade de evidências sobre como, quando e onde o HIV começou a causar doenças em humanos.


A ligação entre HIV e SIV

O HIV é um tipo de lentivírus, o que significa que ele ataca o sistema imunológico. De forma semelhante, o Vírus da Imunodeficiência Símia (SIV) ataca o sistema imunológico de macacos.

Pesquisas constataram que o HIV está relacionado ao SIV e que existem muitas semelhanças entre os dois vírus. O HIV-1 está intimamente relacionado a uma cepa de SIV encontrada em chimpanzés, e o HIV-2 está intimamente relacionado a uma cepa de SIV encontrada no macaco Cercocebus atys.



Cercocebus atys


O HIV veio de macacos?

Em 1999, pesquisadores encontraram uma cepa de SIV (chamada SIVcpz) em um chimpanzé que era quase idêntica ao HIV em humanos.

Os pesquisadores que descobriram esta conexão concluíram que ela provou que os chimpanzés eram a fonte do HIV-1, e que o vírus tinha em algum momento cruzado espécies de chimpanzés para humanos.

Os mesmos cientistas então realizaram mais pesquisas sobre como a SIV poderia ter se desenvolvido nos chimpanzés. Eles descobriram que os chimpanzés tinham caçado e comido duas espécies menores de macacos (macacos mangabeus de capuz vermelho e macacos de nariz manchado maiores). Estes macacos menores infectaram os chimpanzés com duas linhagens diferentes de SIV.

As duas linhagens diferentes de SIV então se uniram para formar um terceiro vírus (SIVcpz) que poderia ser passado para outros chimpanzés. Esta é a estirpe que também pode infectar humanos.

Como o HIV se cruzou dos chimpanzés para humanos?

A teoria mais comumente aceita é a do "caçador". Neste cenário, o SIVcpz foi transferido para humanos como resultado de chimpanzés serem mortos e comidos, ou através do sangue em contato com ferimentos durante a caça. Normalmente, o corpo do caçador teria lutado contra o SIV, mas em algumas ocasiões o vírus se adaptou dentro de seu novo hospedeiro humano e se tornou HIV-1.

Existem quatro grupos principais de cepas de HIV (M, N, O e P), cada um com uma composição genética ligeiramente diferente. Isto apóia a teoria do caçador porque uma vez que a SIV passou de um chimpanzé para um humano, ela tem-se desenvolvido uma forma ligeiramente diferente dentro do corpo humano, e teria produzido uma cepa ligeiramente diferente. Isto explica porque existe mais de uma cepa do HIV-1.

A cepa mais estudada do HIV é o HIV-1 Grupo M, que é a cepa que se espalhou pelo mundo e é responsável pela grande maioria das infecções pelo HIV atualmente.

Como o HIV-2 foi transmitido aos seres humanos?

O HIV-2 vem do SIVsmm em macacos Cercocebus atys em vez de chimpanzés. Acredita-se que o cruzamento para humanos tenha acontecido de forma semelhante (através do abate e consumo de carne de macaco).

É muito mais raro, e menos infeccioso que o HIV-1. Como resultado, infecta muito menos pessoas e é encontrado principalmente em alguns países da África Ocidental como Mali, Mauritânia, Nigéria e Serra Leoa.

Quando e onde o HIV começou nos seres humanos?

Estudos de algumas das primeiras amostras conhecidas de HIV fornecem pistas sobre quando ele apareceu pela primeira vez em humanos e como ele evoluiu. O primeiro caso verificado de HIV é de uma amostra de sangue colhida em 1959 de um homem que vive no que hoje é Kinshasa, na República Democrática do Congo. A amostra foi analisada retrospectivamente e o HIV foi detectado. Há inúmeros casos anteriores onde os padrões de mortes por infecções oportunistas comuns, agora conhecidas como definidoras de AIDS, sugerem que o HIV foi a causa, mas este é o primeiro incidente onde uma amostra de sangue pode verificar a infecção.

O HIV começou na África?

Usando a mais antiga amostra conhecida de HIV, os cientistas foram capazes de criar uma "árvore genealógica" de transmissão do HIV, permitindo-lhes descobrir onde o HIV começou.

Seus estudos concluíram que a primeira transmissão de SIV para o HIV em humanos ocorreu por volta de 1920 em Kinshasa, na República Democrática do Congo.

A mesma área é conhecida por ter a maior diversidade genética em cepas de HIV do mundo, refletindo o número de diferentes vezes que a SIV foi transmitida para humanos. Muitos dos primeiros casos de AIDS foram registrados lá também.

Como o HIV se espalhou a partir de Kinshasa?

A área ao redor de Kinshasa está repleta de ligações de transporte, como estradas, ferrovias e rios. A área também teve um comércio sexual crescente na época em que o HIV começou a se espalhar. A alta população de migrantes e o comércio sexual podem explicar como o HIV se espalhou por essas vias de infra-estrutura. Em 1937, tinha chegado a Brazzaville, cerca de 120 km a oeste de Kinshasa.

A falta de rotas de transporte para o Norte e Leste do país é responsável por um número significativamente menor de relatos de infecções no país na época.

Em 1980, metade de todas as infecções na República Democrática do Congo estavam em locais fora da área de Kinshasa, refletindo a crescente epidemia.

Por que o Haiti é significativo?

Na década de 1960, o subtipo 'B' do HIV-1 (um subtipo da linhagem M) tinha chegado ao Haiti. Nesta época, muitos profissionais haitianos que trabalhavam na República Democrática do Congo colonial durante os anos 60 retornaram ao Haiti. Inicialmente, eles foram culpados por serem responsáveis pela epidemia do HIV, e sofreram um grave racismo, estigma e discriminação como resultado.

O subtipo M do HIV-1 é hoje o subtipo de HIV mais difundido geograficamente a nível internacional. Em 2014, este subtipo já havia causado 75 milhões de infecções.

O que aconteceu na década de 1980 nos EUA?

As pessoas às vezes dizem que o HIV começou nos anos 80 nos Estados Unidos da América (EUA), mas na verdade foi justamente quando as pessoas tomaram conhecimento do HIV e ele foi oficialmente reconhecido como uma nova condição de saúde.

Em 1981, alguns casos de doenças raras estavam sendo relatados entre gays em Nova Iorque e na Califórnia, como o Sarcoma de Kaposi (um câncer raro) e uma infecção pulmonar chamada PCP. Ninguém sabia por que esses cânceres e infecções oportunistas estavam se espalhando, mas concluíram que deveria haver uma "doença" infecciosa que os causava.

No início, a doença era chamada de todo tipo de nome relacionado à palavra 'gay'. Só em meados de 1982 é que os cientistas perceberam que a 'doença' também estava se espalhando entre outras populações, como hemofílicos e usuários de heroína. Em setembro daquele ano, a 'doença' foi finalmente chamada de AIDS.

Foi somente em 1983 que o vírus HIV foi isolado e identificado por pesquisadores do Instituto Pasteur, na França. Originalmente chamado de Vírus Associado à Linfadenopatia (ou LAV), o vírus foi confirmado como a causa da AIDS, quando cientistas trabalhando no Instituto Nacional do Câncer dos EUA isolaram o mesmo vírus e o chamaram de HTLV-III. O LAV e o HTLV-III foram posteriormente reconhecidos como sendo o mesmo.

O que é o "Clube Quatro-H"?

Em 1983, os Centros de Controle de Doenças (CDC) nos Estados Unidos listaram os principais grupos de risco, incluindo parceiros de pessoas com AIDS, pessoas que injetam drogas, hemofílicos e pessoas que estiveram recentemente no Haiti. Na época em que os casos de aids começaram a surgir nos EUA, a ausência de informações definitivas sobre o HIV e sua ligação com a AIDS, inflacionou o pânico e o estigma que cercam a epidemia. Em pouco tempo as pessoas começaram a falar coloquialmente de um "Clube 4-H" em risco de AIDS: homossexuais, hemofílicos, viciados em heroína e haitianos, contribuindo para uma maior estigmatização.


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